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Mulheres na programação: história e desafios do setor

Se você perguntar para a maioria das pessoas quem foram os pioneiros da programação, as chances são grandes de ouvir um nome masculino. Alan Turing, talvez. Ou alguma referência vaga a “engenheiros de Silicon Valley”. O que quase ninguém responde é: mulheres. E esse esquecimento diz muito sobre como esse campo foi se moldando ao longo das décadas, e por que ainda hoje há tanto a mudar.

A participação feminina na tecnologia cresceu, mas ainda está longe de ser igualitária. Entender de onde viemos, o que já construímos e o que ainda trava o avanço é o ponto de partida para qualquer conversa séria sobre o assunto. Vamos lá? 

Quando a programação era “coisa de mulher”

Pouca gente sabe, mas nas décadas de 1940 e 1950 a programação era vista predominantemente como trabalho feminino. A engenharia de hardware era considerada “coisa de homem”, mecânica, física, metal. Já escrever instruções para máquinas parecia, àquela época, uma extensão do trabalho administrativo e de cálculo que mulheres já faziam em escritórios e laboratórios.

Foto em preto e branco das Mulheres do Eniac

O exemplo mais conhecido é o ENIAC, o primeiro computador eletrônico da história, desenvolvido na Universidade da Pensilvânia durante a Segunda Guerra Mundial. Antes da máquina existir, um time de 80 mulheres fazia manualmente os cálculos de trajetória de mísseis. Com o ENIAC pronto, seis dessas mulheres foram escolhidas para programá-lo, sem manual e documentação, apenas com os diagramas lógicos do equipamento. O resultado: cálculos que levavam cerca de 30 horas passaram a ser processados em 15 segundos.

Elas ficaram conhecidas como as Garotas do ENIAC. Por décadas, suas contribuições foram ignoradas ou apagadas da história oficial.

As pioneiras que moldaram a computação moderna

Antes de falar sobre onde estamos hoje, vale conhecer quem construiu as fundações da área, porque boa parte dessas fundações tem nome de mulher.

  • Ada Lovelace (1843) é considerada a primeira programadora da história. Trabalhando com a máquina analítica de Charles Babbage no século XIX, ela desenvolveu o que hoje reconhecemos como o primeiro algoritmo computacional. Mais do que isso, ela já enxergava que as máquinas poderiam ir muito além de cálculos simples, uma visão que só seria confirmada cem anos depois.

Ada Lovelace, a writer and mathematician and the daughter of famous writer Lord Byron, she is known historically as the world’s first computer programmer

  • Hedy Lamarr era atriz de cinema, mas também inventora. Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, patenteou um sistema de variação de frequência para evitar que torpedos controlados por rádio fossem interceptados. Esse princípio está na base de tecnologias como o Bluetooth e versões anteriores do Wi-Fi.
  • Grace Hopper (1952) foi responsável por criar o COBOL, uma das primeiras linguagens de programação orientadas para negócios, e popularizou a ideia de que computadores poderiam ser programados em linguagem mais próxima do inglês, o que abriu caminho para todas as linguagens que vieram depois. Foi também a primeira a usar o termo “bug” para descrever uma falha em um sistema, quando encontrou literalmente uma mariposa causando erros em um computador.
  • Mary Kenneth Keller foi a primeira mulher nos Estados Unidos a concluir um PhD em Ciência da Computação, em 1965. Ao longo da vida, defendeu ativamente o uso de computadores na educação.
  • Margaret Hamilton (1969) liderou o time que desenvolveu o software de navegação das missões Apollo, incluindo a Apollo 11,  a que levou os primeiros humanos à Lua. Em 2016, recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade pelo feito.
  • Radia Perlman é chamada por muitos de “mãe da Internet”. Ela desenvolveu o protocolo Spanning Tree, tecnologia essencial para que os dados fluam de forma eficiente e sem loops pela rede, algo que está funcionando silenciosamente toda vez que você acessa um site.
  • Katherine Johnson foi a matemática da NASA cujos cálculos foram cruciais para os primeiros voos espaciais tripulados americanos. Sua história foi retratada no filme “Estrelas Além do Tempo” (2016).
  • Frances Allen foi, em 2006, a primeira mulher a ganhar o Prêmio Turing, o maior reconhecimento da área de computação, equivalente a um Nobel. Ela trabalhou na IBM por décadas e foi pioneira em otimização de compiladores.

Foto da matéria "The computer girls"

O que aconteceu nos anos 80?

Com uma história tão rica de participação feminina, como chegamos a um cenário de sub-representação? A resposta tem a ver com uma decisão de mercado que parece pequena, mas mudou tudo.

Em meados da década de 1980, o setor de videogames explodiu. E com ele surgiu uma questão: em qual corredor da loja os computadores e consoles deveriam ficar? A decisão foi colocá-los do lado dos brinquedos masculinos. O marketing seguiu essa lógica: os comerciais mostravam meninos. Os filmes da época, como “Jogos de Guerra” e “Weird Science”, reforçaram o estereótipo do programador como um rapaz jovem, nerd e solitário.

O efeito foi imediato e duradouro. Garotas foram ativamente desestimuladas a se interessar por computação. As que mesmo assim se interessaram encontraram hostilidade, exclusão e a sensação constante de não pertencer.

Os números contam essa história com clareza: a participação de mulheres em cursos de Ciência da Computação nos EUA começou a cair de forma acentuada a partir de meados dos anos 80, ao contrário de áreas como Direito, Medicina e Biologia, que continuaram crescendo. Uma queda que não foi revertida até hoje.

O cenário atual: avanços, mas números que ainda incomodam

A boa notícia é que o movimento está crescendo. Comunidades como PyLadies, Black Girls Code, Girls Who Code e WomakersCode movimentam cada vez mais mulheres no Brasil e no mundo, criando redes de apoio, eventos técnicos e programas de mentoria.

Só que os dados mostram que há muito chão pela frente.

De acordo com o relatório State of the Tech Workforce 2024 da CompTIA, mulheres ocupam cerca de 27% das vagas de tecnologia nos EUA, enquanto representam quase metade da força de trabalho geral. Na Europa, o cenário é ainda mais desigual: apenas 22% das vagas de tecnologia são ocupadas por mulheres, segundo dados da Revolent.

Quando o olhar vai para cargos de liderança, a queda é ainda mais acentuada. Apenas 11% das posições executivas em empresas de tecnologia são ocupadas por mulheres, segundo a McKinsey (2024). E em inteligência artificial, uma das áreas que mais cresce e mais vai moldar o futuro, apenas 12% dos pesquisadores globais são mulheres.

No quesito salário, a desigualdade também persiste: para cada dólar ganho por um homem na área de tech nos EUA, a mulher recebe cerca de 84 centavos, segundo o U.S. Census Bureau (2024).

Mulher de casaco cinza trabalhando em um escritório

Por que diversidade de gênero melhora a tecnologia?

Essa não é uma questão só de justiça. É uma questão de qualidade dos produtos, dos serviços e das decisões que a tecnologia produz.

Quando equipes são homogêneas, os pontos cegos se multiplicam. Um exemplo concreto: sistemas de reconhecimento facial desenvolvidos sem diversidade nos times e nos conjuntos de dados têm mostrado erros significativamente maiores ao identificar mulheres e pessoas negras. Não por má intenção, mas por falta de perspectiva.

Os dados sobre desempenho de times diversos são consistentes há anos. Segundo a pesquisa Diversity Matters Even More da McKinsey (2023), empresas com maior diversidade de gênero nas lideranças têm 39% mais chances de superar financeiramente suas concorrentes menos diversas. A BCG encontrou, por sua vez, que equipes de gestão diversas geram 19% mais receita vinda de inovação em comparação com times homogêneos.

Esses números têm limitações, correlação não é causalidade, como a própria McKinsey ressalta. Mas o raciocínio por trás deles faz sentido, pois quem cria a tecnologia determina para quem ela funciona bem. Um setor com mais vozes diferentes toma decisões mais completas.

Desafios que ainda existem

Seria desonesto terminar o retrato por aqui. A presença feminina na tecnologia cresceu, mas a permanência ainda é um problema sério. Segundo dados da McKinsey e Accenture (2024), 56% das mulheres abandonam a carreira em tecnologia antes de atingir posições sênior, número que chama atenção e pede explicação.

Alguns dos motivos mais documentados:

  • A síndrome da impostora, a sensação de não ser boa o suficiente, de estar num lugar onde não pertence, afeta mulheres em tech de forma desproporcional. É reforçada pelo ambiente quando há poucos modelos femininos visíveis e quando contribuições de mulheres são sistematicamente questionadas ou atribuídas a outros.
  • O assédio e a hostilidade ainda estão presentes. 48% das mulheres em cargos de STEM relataram já ter sofrido discriminação no processo seletivo, segundo dados compilados pela WomenTech Network. Dentro das empresas, 72% das mulheres em tech afirmam que são minoria em reuniões de trabalho, com proporção de pelo menos 2 para 1.
  • A falta de progressão clara também pesa: 66% das mulheres em tech relatam não ter clareza sobre como avançar na carreira dentro de suas empresas.

NextAge: tecnologia feita por pessoas, para pessoas

Na NextAge, trabalhamos todos os dias com o desenvolvimento de software para empresas que buscam transformação digital. Dentro disso, uma das coisas que mais nos importa nesse trabalho é reconhecer que tecnologia de qualidade começa com times de qualidade, times que refletem a diversidade da sociedade e que abrem espaço para diferentes perspectivas.

Reconhecemos a contribuição das mulheres que construíram essa área e acreditamos que incentivar sua entrada, permanência e crescimento no setor não é um gesto simbólico: é parte do que torna a tecnologia melhor.

Se você está buscando parceiros para construir soluções de TI com times qualificados e comprometidos com resultados, a NextAge pode ser esse parceiro. Fale com o nosso time.

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